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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Tanto para ler - Entre Katrina e Columbine

Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral

O prêmio de literatura nacional dos Estados Unidos, National Book Awards 2011, foi conquistado pela autora Jesmyn Ward com a ficção “Salvage The Bones”. A história retrata uma comunidade norte-americana atingida pela passagem do furacão Katrina, no Mississipi, e recebeu excelentes críticas desde seu lançamento. No discurso de agradecimento, Jesmyn disse que foi inspirada a seguir seu sonho de se tornar escritora depois da morte de seu irmão, que foi atingido por um motorista bêbado no ano em que ela se formou na faculdade.


Para a escritora, “livros são um testemunho de força ante um mundo punitivo”. E assim, os acontecimentos do furacão e o que os sobreviventes enfrentaram em seguida (roubos, assassinatos e estupros dentro dos locais de refugiados) culminaram no que foi considerado o romance mais importante do ano naquele país.


Esse é um testemunho que muitas vezes aparece no discurso de pessoas relacionadas com a arte. Ela é nosso estandarte contra a perenidade da vida. Achei interessante, no entanto, pensar no sentimento de perda e vazio que gera a arte. Se Sócrates não tivesse sido condenado à morte, nós teríamos a “Alegoria da Caverna”? Talvez sim, mas talvez o texto não estivesse tão apaixonantemente escrito se Platão não tivesse vivido a dor de perder seu mestre.


Os assassinatos brutais de crianças em uma escola norte-americana em Columbine provocou a autora Lionel Shriver a mergulhar na sociedade que cria assassinos mirins. Assim como Michael Moore fez no documentário “Tiros em Columbine”, ela traz uma abordagem diferente do acontecimento que não tem nada de “videogames provocam violência” ou “culpe a televisão”.


A mãe de Kevin Khatchadourian, o assassino, escreve cartas para o pai ausente do menino e nelas discute a criação do filho, o relacionamento entre eles e suas próprias escolhas de vida dentro de uma sociedade dominada pelo senso de absurdo. O livro é controverso e discute se a própria decisão da maternidade tem muito a ver com nossas atuais crianças. A história, que não é real, tem elementos de vários desses crimes que, infelizmente, tornaram-se recorrentes nos Estados Unidos.


Não uma face bonita da nossa humanidade para ser eternizada, mas uma provocação em resposta ao que vivemos. Seria mais agradável viver num mundo só com o lado da Comédia. Mas se vamos ter que enfrentar a Tragédia, que ela dê frutos de reflexão, pelo menos. Enquanto isso, já estou aguardando a tradução do livro da Jesmyn Ward aqui no Brasil.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Tanto para ler: As leis e os livros

Eugênia Cabral
@eugenimcabral


A gente costuma dizer que não se legisla a favor da cultura no Brasil. Verdade apenas em parte. Tem projetos interessantes. Só que não sabemos, não cobramos, não acompanhamos. De um ano para cá, por conta de um novo trabalho, se abriu diante dos meus olhos o mundo legislativo brasileiro. Confesso que não tinha a menor ideia do que se passava em nenhuma esfera de poder além do que era publicado nos jornais. Descobri que todos os dias vários projetos, muitos que me interessam pessoalmente, são colocados em pauta. E se eu ficar dependendo só da pauta da imprensa, demorarei a conhecê-los.

Agora em outubro, o deputado federal Izalci Ferreira (PR-DF) fez uma indicação (INC 1802/2011) ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome para a inclusão de livros nas cestas de alimentos distribuídas por meio dos programas sociais. Não seria uma iniciativa ótima? Além de receber apoio alimentar, eles poderiam ter acesso a obras brasileiras. Muitos não saberiam ler, outros não teriam interesse. Despertariam, porém, para outra proposta de acesso e incentivo à literatura.

Esta proposta é uma reformulação de outra que o senador Cristovam Buarque (PDT/DF) fez em 2009: o Projeto de Lei 5161/2009 instituía a Cesta Básica do Livro para alunos do Ensino Fundamental e Médio da rede pública que funcionaria da mesma forma que a cesta alimentar. A Comissão de Educação e Cultura rejeitou e a Mesa Diretora arquivou.

E alguém sabia que de acordo com uma Norma Jurídica de 2009, Taubaté, em São Paulo, é a "Capital Nacional da Literatura Infantil"? Roberto Alves (PTB/SP) foi o autor e eu não sei nem onde essa nossa Capital Nacional fica no mapa...

Outro projeto que está em trâmite é o de Marcelo Almeida (PMDB-PR), o 7263/2010 cria o Prêmio José Ephim Mindlin, para escolas “públicas ou privadas, de ensino fundamental ou médio, que desenvolvam atividades curriculares relevantes ligadas ao livro e à leitura”. O PL está sendo avaliado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), que tem obrigação de conferir se os PL’s não ferem a Constituição e nem outras leis anteriores a eles.

Na Câmara dos Deputados, a Comissão de Educação e Cultura é encabeçada por representantes do Nordeste: Fátima Bezerra (PT/RN) é a presidente; Lelo Coimbra (PMDB/ES) é o 1º Vice-Presidente, Artur Bruno (PT/CE), o 2º Vice-Presidente; e Alice Portugal (PCdoB/BA) ocupa a posição de 3º Vice-Presidente. O que será que esse time anda fazendo pela literatura no Nordeste? Todos os projetos, normas e indicações feitas podem ser lidas na íntegra em www.camara.gov.br. Recomendo dar uma passada de olhos por lá de vez em quando. Leitura instrutiva e eu já achei verdadeiros épicos naquelas páginas...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Tanto para ler: Bonecas russas


 
Eugênia Cabral
@eugeniamcabral


Eu tenho descoberto que estes textos para a Dedo de Moças viraram um verdadeiro termômetro da minha vida. Quando eu perco o controle por um segundo, a semana passa sem ele. E quando se uniu uma viagem à correria, passaram algumas semanas sem que eu semvergonhamente desse as caras por aqui. Perdão. Eu passo batido mas não é por descaso. Retomemos. Sempre retomemos, aliás.

Ontem, minha prima se indignou quando viu uma propagada de “O Morro dos Ventos Uivantes” na revista da Avon: “O livro preferido de Bella e Edward da série Crepúsculo”. A raiva foi ver um clássico como o romance de Emily Brontë reduzido a uma indicação da série de vampirinhos adolescentes. Eu concordo em gênero, número e grau que é rebaixar a obra. Mas a Avon vender livros por aquelas revistas, eu acho ótimo. Se precisar relacionar com os vampiros da moda para fazer a Emily ser lida, estou dentro.

Nunca li “Crepúsculo” (falha séria com leituras in da atualidade) mas particularmente adoro quando estou lendo um livro que me traz informações de outro livro. Um dentro do outro nos permitindo uma degustação dos protagonistas e suas histórias. Por exemplo, terminei de ler “A Elegância do Ouriço”, de Muriel Barbery, desesperada para ler “Anna Karenina”, de Tolstói. Também de conhecer um diretor japonês cujo nome agora não me recordo mas é muito comentado na história.


“As Horas”, de Michael Cunningham já é por si um romance maravilhoso (muito bem adaptado por sinal). Os pedacinhos de Virginia Wolf que vão se soltando dele podem servir de ponte para toda sua obra, mas remetem diretamente à “Mrs. Dalloway”.

Há livros especialmente feitos para evocar outros. Em “O Leitor”, Bernhard Schlink um adolescente de 15 anos tem seu primeiro caso amoroso com uma mulher. Seu ritual de encontros envolve a leitura em voz alta de livros como “Odisséia”, de Homero, “Guerra e Paz”, de Tolstói e “A dama do cachorrinho” de outro russo, Anton Tchékhov. Tirando Odisséia que já li, todos entraram na lista de 2012 (vejam como só vai dar Tolstói...).

Às vezes, o livro nem cita o outro, mas traz tanto de seus elementos que se faz necessário ir atrás da segunda obra. José Saramago construiu “A Caverna” praticamente tricotando com Kafka. Aí fica aquela sensação de: “eu devia ler “O Castelo” para completar essa história... Aviso justo aos navegantes já que uma amiga só descobriu depois de 600 páginas: o referido texto é uma obra inacabada. Não que eu achasse que Kafka ia dar fim ao sofrimento do agrimensor. Fica a critério de quem for encarar.

“Cartas para Julieta”, de Ceil Friedman e Lise Friedman, não tem a ver com a história do filme. Realmente chegam à Verona milhares de cartas direcionadas a Julieta e um monte de voluntárias se encarregam de responder. O livro mostra algumas cartas, as voluntárias e como a cidade construiu o mito que culminou na história imortalizada por William Shakespeare: “Romeu e Julieta”. Desafio a qualquer pessoa não correr para ler, ou reler, o clássico depois de descobrir as histórias de Verona. E vale a pena.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tanto para Ler: Dias de poeta

Eugênia Cabral
@eugeniamcabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br


Poesia é uma área da literatura muito interessante. Por um lado tem uma aura de intelectualidade. "Poesia é só para gente muito culta porque é complicada de entender!" Por outro, há um sentimento generalizado que ninguém lê. "Poesia é um negócio chato porque é leeento!" Fui avisada pela internet que no dia 04 de outubro é comemorado o Dia do Poeta. Esse fingidor que hoje em dia anda raro de ser visto por aí.

Nas conversas, a impressão que tenho é que as mesmas poesias estão sempre sendo lidas. E constantemente, são os mesmos poetas. Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles... Nos últimos anos, Caio Fernando Abreu como que saltou aos olhos das pessoas e vem sendo recitado em muitas contas de Facebook e Twitter. Ainda sou do fã-clube do Manuel Bandeira: “A alma que estraga o amor”... Todos incontestáveis. Mas não se fez mais nada depois?

Atualmente, as redes sociais provocaram a volta das poesias de agenda. Lembram daquelas agendas de adolescência, nas quais são copiadas frases bonitas? Hoje, as letras de músicas copiadas são vídeos do Youtube postados no Facebook. Em vez de copiar, vocês retuita contas especializadas em colocar frases e trechos de poemas como a do @pensador.

Enquanto eu escrevia este texto, ele mostrava: “Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência” --Fernando Pessoa (outro campeão de citações).

Quantos aos nossos autores contemporâneos... Bom, eu não tenho certeza se vou saber citar quem são os poetas atuais mais conhecidos nacionalmente. Melhor nem arriscar. Conheço uns cearenses que equilibram as carreiras profissionais com a luta de escrever e conseguem, com muita dedicação, publicar os registros do seu trabalho.

O processo de reconhecimento instantâneo que criou as “celebridades da internet” ainda não me apresentou nenhum “poeta da internet”. Como me considero usuária mediana de redes sociais, acho que teria me alcançado se algum surgisse. Até conheço alguns desses autores guerreiros que publicam algo de sua produção. Mas nada que o torne “célebre e online”.


As redes sociais sociabilizaram alguns autores e frases, mas ainda não recuperaram a poesia para nosso cotidiano. Pena. Enquanto isso, vou aqui lentamente passando por um livro de poesia em homenagem aos Dias dos Poetas. Lentamente, por escolha e prazer próprio, diga-se de passagem. Não sou do tipo que lê poesia como romance não. Mas gosto e queria muito conhecer mais. Meus sentimentos sobre a área são exatamente os de Paulo Leminski (outro que vale a pena) em “Poetas Velhos”:

Bom dia, poetas velhos.
Me deixem na boca
o gosto dos versos
mais fortes que não farei.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Tanto para ler

Histórias que continuam

Eugênia Cabral
@eugeniamcabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br

Fãs do clássico “O Iluminado” entraram em festa nesta semana. O autor Stephen King anunciou segunda-feira (26/09) em seu site que está escrevendo uma continuação da história. Não leu o primeiro livro? Pule para o próximo parágrafo porque aqui vai uma parte do fim. O novo livro mostrará o menino Danny, sobrevivente do terror no Hotel Overlook, como um homem de 40 anos que trabalha num hospital e usa seus poderes para ajudar os pacientes a “mudarem de lado” e se chamará “Dr. Sleep” (Dr. Sono).

O novo livro mostra o pequeno Danny agora um adulto de 40 anos

Continuações de história queridas e vendidas como esta correm um risco enorme. Tanto é possível deixar tudo melhor como estragar o que tinha sido uma boa história. Ira Levin poderia muito bem ter ficado apenas com “O Bebê de Rosemary”, a continuação “O Filho de Rosemary” é qualquer coisa de terrível e tem um final seriamente besta. Dá raiva de ter lido o primeiro.

Por outro lado, “O Senhor dos Anéis” nada mais é que a continuação da história iniciada em “O Hobbit” por JRR Tolkien. Já pensou se ele para no primeiro livro?! No fim da trilogia final, o autor ainda faz um resumo do que foi a vida de cada um dos personagens depois da história da destruição do Anel do Poder. Do início ao fim, nós estivemos na Terra Média.

Alguns autores, principalmente de suspense, se agarram a um personagem e vão criando várias histórias com eles, como Dean Koontz, Sidney Sheldon, Dan Brown e Robin Cook. As histórias trazem a familiaridade de personagens queridos com novas situações e enredos. Tem continuações que até sobrevivem ao próprio autor. Robert Ludlum é o pai legítimo do agente Jason Bourne, mas enquanto ele escreveu apenas três livros com o personagem, o escritor Eric Van Lustbader já escreveu SETE depois da morte de Ludlum.

Para evitar que os herdeiros dela dessem uma de engraçadinhos como os de Ludlum, a britânica Agatha Christie assassinou seu personagem mais famoso, Hercule Poirot. Ela declarou que queria dar um fim digno a ele e fechar sua história. Assim garantiu aos leitores que Poirot não seria transformado em outra coisa na mão de outros autores. Não vou colocar em que livro isso acontece para não estragar a continuação de ninguém.

Há alguns personagens que já continuaram tanto e por tantas mãos que ninguém nem lembra mais qual foi aquela primeira história na qual apareceram. Faz tempo que Drácula não é só de Bram Stoker. Mary Shalley não só perdeu a guarda de Frankenstein como o nome, que era do criador, agora é como ficou conhecido o monstro criado. Faz bem mesmo Stephen King continuar suas histórias. Mas isso não vai impedir que o Hotel Overlook apareça em outros livros daqui uns anos. Afinal, a gente cria filho é para o mundo, né?

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Tanto para ler

Baleias na prateleira
Eugênia Cabral
@eugeniamcabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora

Eu elegi, nos últimos dias, como a sensação mais angustiante aquela de tentar terminar algo e não conseguir. Você vai botando vários pontos finais, mas terminar mesmo? Dizer que não vai mais precisar tocar naquilo? Nada. Ainda falta isso e aquilo. Claro que isso veio de uma situação muito específica na minha vida, chamada dissertação. Mas eu tenho uma coleção de livros na minha estante com o marcador lá no meio que não somem de modo algum.


Durante o último mês, por exemplo, comecei a ler Memorial de Maria Moura, da Rachel de Queiróz. Amei o livro, mas minha leitura devoradora teve que ser parada tantas vezes para retomar a dissertação que a Maria Moura agora está largada no criado-mudo. Lembro nem em que ponto do sertão a deixei.

Outro que não termino por nada no mundo é “Grandes Sertões: Veredas”, do Guimarães Rosa. Lia lentamente e parei. Seis meses depois continuei de onde estava, e parei. Um ano depois, decidi recomeçar (agora vai!) e parei um pouco depois do ponto que estava na primeira leitura. O pior? O livro é ótimo. Eu só não consigo terminar! Dois anos depois, ele está ali, do lado da Maria Moura.


Às vezes é fácil entender o motivo da enrolação. Meu esposo sofreu para ler “Cem Anos de Solidão”, do Gabriel García Márquez, até comprar uma edição com a árvore genealógica da família na primeira página. Acabou rapidinho. O problema era que ele se confundia com tantos irmãos, filhos e primos.

Um autor que me detém por conta dos personagens é Fiódor Dostoiévsky. Eu tenho DOIS inacabados dele. Um é “Os Irmãos Karamázov” simplesmente porque eu não consigo nunca saber que irmão é qual e faz o quê. Dmitri Fiodorovitch Karamázov, Ivan Fiodorovitch Karamázov e Aliêksei Fiodorovitch Karamázov são os irmãos que normalmente são citados assim, com os três nomes (bastava o primeiro, não?).

O segundo inacabado dele é “Memorial da Casa dos Mortos”, pelo mesmo motivo de confusão entre os personagens (todos homens numa prisão). Eu devo ter algum problema mental muito específico que me faz trocar tudo sobre os personagens do Dostoiévsky.

Esses quatro livros têm andado me encarando e provocando a citada angústia do primeiro parágrafo. “Você não me terminou, não me terminou, não me terminou...”. Viraram minhas Moby Dicks, em uma metáfora à história de Melville (esse eu terminei). E agora, que eu acho que a dissertação acabou, lá vou eu armar meu barco e partir para a caçada dos intermináveis. Quem sabe 2011 acaba com essas espécies extintas da pilha “Livros para ler”.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Tanto para ler

Cooperativa de Letras


Eugênia Cabral
@eugeniamcabral

eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br

Já ouviu falar de cooperativa? Eu tenho muita vontade de participar de uma cooperativa financeira. São “bancos” de associações que geram juros e taxas para os próprios cooperados em vez de ir para os banqueiros. Ultimamente, convivendo mais no ambiente de moda também conheci várias iniciativas legais de cooperativas de costureiras, que estão abastecendo grandes marcas de uma forma sustentável.

As cooperativas são a união de uma categoria para trabalhar melhor e entrar no mercado como um bloco. Já pensou numa cooperativa de escritores? Se é tão caro imprimir nas gráficas, se é tão complicado divulgar, os escritores poderiam se unir para trabalhar isso, não?

O problema é que atualmente eu encontro dois tipos de escritores. A grande maioria tem trabalhos de 8 horas e escreve. E uma pequena parte vive da e para a arte. Enquanto o primeiro grupo não tem tempo o segundo está às vezes muito envolvido no próprio processo para se mobilizar.

Em países como Estados Unidos, há livros novos sendo vendido por 5 dólares, os chamados paperbacks, que são publicações em folha bem barata (quase estilo jornal) e de tamanho pequeno. Eles permitem que as edições estejam acessíveis à maior parte da população. Para quem quiser pagar mais, o volume hardcover é maior, com papel melhor e capa dura. Um jeito prático de desenvolver um produto que seja vendível.

A Rede Nordeste do Livro foi criada na Bienal de Livro do Ceará, em 2008, formada por gestores públicos, editores, livreiros e escritores. Também temos outros grupos no Ceará como o Fórum de Literatura e Leitura do Ceará e o sindicato das livrarias e editoras, Sindilivros/CE.

Da Rede, veio o Fórum da Rede Nordeste do Livro e da Leitura, que tem um blog (http://forumdeliteraturace.wordpress.com/) editado pela jornalista e escritora Luiza Helena Amorim. No blog, há informações sobre políticas públicas para literatura, balanços do setor e encontros. A Associação Cearense de Escritores (http://escritores-ce.blogspot.com/-ce.blogspot.com/) tem feito diversos concursos de conto e poesias, excelente espaço
para novos autores, e edita livros e folhetos.


Essa troca de informações e organização como um grupo unido dos que têm a pretensão de viver de livros no Nordeste é a única forma que eu vejo de pressionar o governo por incentivos culturais e, principalmente, fiscais. Iniciativas como eventos literários (como os citados em outros posts), abatimento de impostos e garantia de compra por prefeituras e Estado são os primeiros movimentos para o mercado literário nordestino deixar de consumir as pequenas publicações do Sul, que chegam aqui mais fácil que os escritos locais.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Tanto para ler

Leia e deixe ler 2



Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral

Voltando ao tema iniciado duas semanas atrás. Continuo pensando sobre os preconceitos literários. E falemos de Paulo Coelho. Sobre este autor, o que mais me espanta é que motivos levaram ao autor brasileiro mais vendido no mundo ser tão mal considerado pelos seus compatriotas. Carrego várias teorias.

A primeira vem do fato de Paulo Coelho ter surgido na mídia brasileira se vendendo como tudo, menos escritor. Era um “mago”. Que nos anos 80 fazia sentido e tinha uma fatia de mercado considerável. Mas com o tempo começou a ficar meio sem motivo de ser e um tanto quanto patético. Tanto que o próprio Coelho parou de falar sobre este assunto completamente. Levar a sério os livros de um mago é uma história difícil.

O segundo motivo é que ele uniu seu próprio nome com a já citada e mal afamada autoajuda. “Diário de um mago” foi um livro que eu comecei a ler e não tive a menor condição. Parei na hora que o livro me mandava imaginar que eu era uma árvore e fazer o movimento de crescer. Vou poupar quem me lê dos comentários que eu faria.

Então, a união dos poderes desses dois fatos fez com que Paulo Coelho se tornasse o mais execrado dos escritores brasileiros. Sua entrada na Academia Brasileira de Letras foi em geral ridicularizada. O que acho um desrespeito. Se não gosta da obra dele, esculhambe com ela, não precisa xingar o escritor.

Pelas minhas idas nessa área, além do “Diário” também não consegui ler o livro dele mais famosos de todos, “O Alquimista”. Mas li “Brida” e gostei muito. É a história de uma mulher que resolve virar wicana (bruxa) e vai entrando em contato com vidas passadas. Eu adoro o gênero fantasia, como “Senhor dos Anéis” e afins. Essa foi para mim uma história no clima “As brumas de Avalon”, da inglesa Marion Zimmer Bradley (que apesar de só escrever sobre  bruxas e a ilha mística de Avalon foi muito querida pelos britânicos).

“As Valquírias” foi outro que terminei. Achei cansativo e dei uma nota seis. Por fim, li “Veronika decide morrer”, que virou um filme com Sarah Michelle Gellar no papel da Veronika (a Buffy da série de TV para quem não lembrou). Foi dos três o que mais gostei. Em alguns momentos resvala no clichê, mas é uma história bem contada e interessante. Veronika resolve se matar porque tem uma vida vazia e sem sentido. Quando é internada em um hospital psiquiátrico (obrigatório para quem tenta suicídio em alguns países), ela descobre que tem os dias contatos e precisa lidar com isso.

Não li, mas um amigo leu e adorou “O Demônio e a Senhorita Prym”. Este mostra o que acontece quando o demônio oferece dez barras de ouro para uma cidade se alguém cometer um assassinato. Stephen King trabalhou com tema parecido em “A Tempestade do Século”, só que batendo mais forte no terror.

Bom, entre bons e maus livros do Paulo Coelho, acho que entendo muito mais alguém dizer “não gosto do gênero ficção”, ou “não gosto de fantasia”, que dizer “não suporto Paulo Coelho”. A não ser que você esteja falando daqueles primeiros livros do mago de 1980, não consegui achar nenhuma característica tão dele que a gente consiga instituir o gênero literário “Paulo Coelho”. Deixemos ler então nosso brasileiro mais famoso na literatura mundial. E, se você deixar mesmo de preconceito, quem sabe até se orgulha... 

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Tanto para ler

Para todos nós

Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral

Decidi me rebelar de tudo que eu tinha decidido a escrever hoje e ser ... romântica. Mas ora veja só, que coisa mais descabida para se fazer! Ainda mais quando você anunciou o 1 em um texto e o número 2 está aqui na esquina. Pois, é, mas arroubos românticos servem para isso, sair do plano.

Nos últimos dias, tenho conhecido o texto lindo e emocionante de Cristiana Guerra.
As viradas da vida dela, a dor e a alegria e sobre o que escreve, ultimamente têm revirado a minha vida. Cris Guerra é publicitária. Estilosa, competente e premiada. É a dona do blog
www.hojevouassim.com.br no qual fotografa e mostra os looks que escolhe para usar. Eu já tinha visto mas não prestei atenção alguma. Aí uma aluna minha me falou que aquele era osegundo blog dela e o primeiro na verdade era o parafrancisco.blogspot.com.

Cris Guerra estava grávida de sete meses do filho Francisco quando o pai da criança morreu repentinamente. Eles disseram tchau num dia e no outro o coração dele parou. Ela começa a escrever o blog para falar ao filho sobre o pai, a história deles e do seu amor. E acaba que fala de si, do seu amor, da sua vida. Ela se expõe completamente, com choro, com mágoa, com desespero e com paz. Todo o período do relacionamento deles está ali, a partida também. A vida com o filho depois entra na história e até hoje o blog é atualizado.

Eu tenho descoberto que não é recomendável ler no trabalho porque quando você encontraum post no qual ela descreve que viu o filho, hoje acho que com quatro anos, dizendo para o avô: “Eu tenho pai. Ele se chama Guilherme” dói uma dor ruinzinha demais e eu particularmente choro com propaganda do Greenpeace, imagina com isto. Mas não me entenda mal, não é um blog triste não. É delicado. É gentil. É apaixonado. Puro amor.

Cris Guerra escreve muito, muito bem. Ela consegue passar as sutilezas de seu cotidiano de uma forma tão envolvente que dá quase vergonha de ser tão íntimo. No blog estão músicas, poesias, fotos e desenhos. Em 2008, foi publicado pela editora ARX o livro “Para Francisco” com os textos do blog e outras coisas mais. Na humilde opinião de quem gosta de falar de livros, leitura que vale a pena. Cris Guerra nos ensina a viver: “É um privilégio seguir amando - e amando cada vez mais”. Pensando bem, ela poderia se encaixar na estante de autoajuda (e no fim das contas esse texto foi um 1 e ½!).