sexta-feira, 15 de julho de 2011

Tanto para Ler

Harry Potter e os clássicos





Por Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral



Na semana da estreia do último filme a retratar a série de livros da escritora inglesa JK Rowlling, vamos rememorar a historinha dos bruxos mais pops da atualidade. Harry Potter era um menino comum, que morava num cubículo embaixo da escada da casa dos tios, que o detestavam. Não ia para escola, não tinha amigos, brinquedos e passava fome. De repente, no aniversário de 11 anos, recebe uma carta afirmando que ele na verdade é um bruxo e tem vaga garantida na escola para bruxos Hogwarts. Quando chega lá, o menino descobre que é muito famoso pois um bruxo muito ruim chamado Lorde Voldemort matou os pais de Harry e tentou matá-lo, mas por motivos inexplicáveis não conseguiu e quase foi destruído deixando uma cicatriz em forma de raio na testa do rapaz.
Bom, esta foi a premissa da história que chegou ao Brasil em 2001 com “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Neste e nos seis livros seguintes, Harry e os amigos Rony e Hermione enfrentam todo tipo de bicho e feitiço do mal para tentar destruir de uma vez por todas Voldemort. Transformado em fenômeno pop atual através de uma extensa e intensa campanha de marketing e pelos filmes produzidos, os livros da série HP são recorde mundial de leitura.
De acordo com a tese “A Literatura Infantil no Contexto Cultural da Pós-Modernidade: o caso Harry Potter”, de Patrícia Pitta no Doutorado em Letras na PUC/RS (e não é a única que você encontra na Internet sobre ele), os livros já foram traduzidos em mais de 60 idiomas, incluindo grego clássico, latim e gaélico, em mais de 200 países. Em março de 2006, bateu a marca de 300 milhões de exemplares comercializados.
E tanta conversa sobre marketing corre o risco de enevoar o que considero o mais importante da série: 300 milhões de exemplares vendidos. Num mundo de Wii, Xbox, IPad, IPhone e todos os estímulos eletrônicos, esse número é um passe de mágica. Eu costumo contar sempre a história da minha prima com o Harry (íntimos). Eu fui ler o livro para ela, fazendo vozes dos personagens para empolgá-la porque eram quase duzentas páginas sem nenhuma figura e ela tinha 10 anos. Não só o rapaz conquistou a menina, como no segundo livro ela já lia para mim alguns capítulos e do terceiro em diante, lia antes de mim.
A popularidade dele ganhou até a benção do Papa. Ao comentar o sexto filme da série, “Harry Potter e o Príncipe Mendigo” o Vaticano elogiou a forma como o bem e o mal estão claramente distintos na obra, o modo como o protagonista escolhe lutar pelo bem e por seus amigos e o tratamento “responsável” dado à questão do romance.
Enfim, logo os filmes ficarão ultrapassados em tecnologia, os atores superados por novos ícones juvenis e a moda Potter vai ser substituída por outra tendência. Os livros da série, no entanto, merecem continuar nas estantes das próximas gerações ensinando mais crianças a devorar suas páginas para descobrir se nosso herói vai conseguir sobreviver à luta contra o mal. Essa história, como todos os clássicos, não envelhece. E eu creio que nós vimos nascer na nossa geração um clássico da literatura infanto-juvenil. Daqui a cinquenta anos, a gente volta a falar sobre isso.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Tanto para Ler

 
 
 
Bodas na literatura

Por Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral



Eu tenho uma prima que está entrando na etapa crítica de “faltam 15 dias para meu casamento”. Aparentemente, muitas mulheres temem perder o juízo nesta época. Não posso opinar sobre isso porque eu fui uma noiva muito calminha. Mas, de acordo com o que me dizem, isso foi exceção. O que me levou a pensar, que casamentos legais eu já encontrei pelos livros? Pouquíssimos que já li. Acho que a festa de casamento em si (e o histerismo que a acompanha) rendem muitos filmes, mas não exatamente livros. Ou os livros estão trazendo mais o romance que a cerimônia em si.
O primeiro que me lembrei, e o calor da estreia do último filme pode ser o culpado, foi o de “Harry Potter e as Relíquias da Morte”. O casamento de um dos irmãos Wesley é descrito em detalhes no início do livro com direito a todo tipo de pirotecnia mágica. E ainda tem emoção de sobra na festa. Em “A Hora das Bruxas”, de Anne Rice, também tem um super casamento romântico antes do fantasma sair botando para quebrar na família. E minha lista de leituras sobre o assunto acaba aqui. Se alguém souber outros bons exemplos, favor enviar.
Pesquisando sobre o assunto, Ariano Suassuna tem uma peça chamada “O Casamento Suspeitoso”, que eu confesso que nunca li. Mas trata de um casamento de interesses sendo selado. O casamento movido pelo dinheiro também é a história de “Um assassinato, um mistério e um casamento”, de Mark Twain. Nele, um fazendeiro vê no casamento da filha com um homem rico sua última oportunidade de enriquecer.
E descobri, minha próxima aquisição por sinal, o livro “A convidada do casamento” da maravilhosa escritora norte-americana Carson McCullers. Nele, uma menina de doze anos sofre o sentimento de desconexão com a realidade a sua volta enquanto sonha em fugir junto com seu irmão e a noiva dele. Desconexão e solidão são marcas da autora que também escreveu “O Coração é um caçador solitário” e “A balada do café triste”. Seus personagens são espíritos profundamente abandonados. Amor e ódio e desinteresse estão misturados nas histórias que são muito bem escritas e um tanto poéticas. Um amigo meu um dia comentou que Carson é a Clarice Lispector deles.
Num dos seus contos mais famosos, “Uma árvore, uma pedra, uma nuvem”, um homem para um entregador jornais num bar com um “Amo você” e pede que ele sente com ele por cinco minutos enquanto ele lhe ensina o verdadeiro modo de começar a amar as pessoas. Ainda não alcancei esse amor pelo mundo, mas é interessante saber que ele existe. E seria mais interessante ainda ver esse tipo de amor em um casal, precisava realmente nem ter casamento.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Tanto para Ler



José Saramago

Homenagens de junho


Por Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral


Junho virou um mês ingrato para a literatura. Nele perdemos Jorge Luís Borges no dia 14, há 25 anos atrás, e José Saramago, no dia 18 do ano passado. O primeiro tem sido uma descoberta recente na minha vida, mas o segundo é um amor antigo e um homem que tive a grande honra de ver pessoalmente.
Das homenagens que Borges ganhou, a que mais me tocou foi feita pelos italianos. Um jardim em forma de labirinto feito por 3.200 plantas em Veneza foi inaugurado no último dia 14. A obra se relaciona com o consto “O jardim dos caminhos que sebifurcam” e vem sendo gerada pelo arquiteto Randoll Coate desde 1980. Agora, a Fundação Cini abraçou a causa e quem passar pela Itália por agora já sabe o que não pode perder.
Com uma morte mais recente, e por isso mais provocativa, José Saramago é o tema de diversos eventos neste mês. O Nobel português teve suas cinzas transportadas para os pés de uma oliveira centenária, em drente à Casa dos Bicos, sede da Fundação José Saramago. Portugal viveu por algum tempo a discussão “onde descansará Saramago” se em Lisboa ou na casa em que ele vivia na Espanha. Com a decisão de sua companheira Pilar Del Rio de viver em Lisboa, não restou dúvidas sobre a questão.
Outro evento foi o anúncio do lançamento de três obras da Editoral Caminho. Uma delas, “Palavras para José Saramago” (2011) reúne os textos de jornalistas e críticos literários de todo o mundo nos dias posteriores ao falecimento do autor expressando seus sentimento diante da partida de Saramago. “O Silêncio da Água”(2011) é um fragmento ilustrado de “As Pequenas Memórias” (2006) destinado ao público infantil no qual o autor conta lembranças da infâncias e juventude. Por fim, “A Última Entrevista de José Saramago(2011), de José Rodrigues dos Santos traz exatamente, a última entrevista dada pelo autor.
Os leitores ainda terão um último gostinho de comprar o novo Saramago nas livrarias, aliás dois. Um romance inédito feito em 1953 será publicado em Portugal no fim do ano. E no ano que vem, segundo Pilar Del Rio, a obra “Alabardas, alabardas! Espingardas, espingardas!” que o autor escrevia quando morreu será publicada.
Eu tenho um arrepio quando me dizem dessa história de publicar inéditos guardados e romances inacabados. Quanto aos guardados, sou contra. Se ele não quis publicar na época porque ia querer agora? Vi uma entrevista do Chico Buarque dizendo que destrói tudo não publicado para não ter vergonha depois de morto. E quanto aos inacabados. Aí não me atrevo. A busca pela final da história me perseguiria para o resto da vida...
Mas isso sou eu, quem gosta, aproveita. Aliás,e se bem conheço a personalidade pública de Pilar Del Rio , ainda teremos, enquanto ela for viva, muito o que ler de Saramago. E vida longa às obras de Saramago e Borges!

terça-feira, 7 de junho de 2011



Histórias e jornalismo em quadrinhos
 

Por Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral
 

 Que eu adoro quadrinhos, já foi citado aqui, mas além das revistas, eu também adoro o formato quadrinhos. E cada vez mais, as editoras estão trazendo obras para este formato ou já publicando nele. Aliás, para adultos, o nome é graphic novel ou comics(acho que quem lê se sente mais adulto quando fala o nome em inglês).
A L&PM Editores vem publicando desde o ano passado Agatha Christie em quadrinhos: "Assassinato no Expresso Oriente", "Morte no Nilo", "Morte na Mesopotâmia" e "O Caso dos Dez Negrinhos". Eles são desenhados por artistas franceses e a adaptação das histórias fica a cargo do escritor e roteirista François Rivière.
A Companhia das Letras também vem investindo nessa onda e está trabalhando com clássicos da literatura mundial em desenho. Segundo o site da editora, nesta semana sairá “Na colônia Penal”, baseada na obra de Franz Kafka, com adaptação de SylvainRicard e arte de Maël. Ainda em junho, deve chegar a versão do designer Seymour Chwast para o poema épico “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Esta obra obviamente traz um universo poderoso para ser colocado em desenho.
O mercado de comics não é só de adaptações. Há um forte segmento de histórias para adultos sendo publicado e, apesar do formato, não tem nada a ver com o mundo nerd dos super heróis. Uma das obras que mais me chamou a atenção, até pelo caráter jornalístico é “Uma história de Sarajevo”, de Joe Sacco.
Fiquei sabendo da sua existência pelo trabalho acadêmico da jornalista Vicky Nóbrega. A discussão que apareceu foi: o teor jornalístico está no formato? Ou no modo como a história foi contada? E se o autor não fosse jornalista, isso seria considerado jornalismo? Enfim, a discussão não teve fim e fui eu atrás da obra. Que virou para mim uma das boas opções para dar de presente a amigos.
O autor provoca essa polêmica por si, Sacco é artista dos quadrinhos e jornalista e tem forte atuação como ambos. Ele tem outras obras como “Palestina: Uma nação ocupada”,“Área de Segurança: Gorazde”.
“Uma história de Sarajevo” acompanha o jornalista/artista/personagempela cidade depois que a guerra da Bósnia acaba e os olhos do mundo se voltam para outras guerras. E para circular por ali, há que se ter precisa de ajuda. Sacco contrataNeven, guia local que vai ser o fio condutor da história. À medida que os quadros seguem, você ama, odeiae perdoa as figuras que vão circulando por ali. E se espanta como as questões que envolvem aquela terra são complexas e profundas. Boas histórias em um formato maravilhoso de ser lido.

Uma história de Sarajevo (2005), de Joe Sacco
Conrad do Brasil
R$ 33,00

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Tanto para Ler

Lendo na prisão


Por Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
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Há pouco tempo (e depois de um tempo infindável de vergonha), Pimenta Neves finalmente foi preso pelo homicídio cometido em 2000 no qual assassinou a ex-namorada Sandra Gomide. O absurdo do caso não será nem comentado aqui. O que vai aparecer aqui foi o pedido dele ao delegado para levar alguns livros para a prisão.
Segundo a imprensa, as obras foram "Vigiar e Punir", de Michel Foucault (ele deve estar em busca de citações para o próximo recurso), "O Deus Selvagem – Um Estudo do Suicídio", de A. Alvarez (esse deve ter sido para causar efeito), "Sermões", de padre Antônio Vieira (um livro difícil com longos textos e linguagem rebuscada, mas acho que ele tem tempo para se dedicar) e um livro de Shakespeare cujo nome não foi divulgado (eu acharia irônico se fosse “Otelo”).
Para passar o resto da vida em um cubículo, realmente só a companhia de muitos livros. E talvez de papel e caneta também. O italiano Antonio Gramsci escreveu na prisão muito da sua obra. Rosa Luxemburgo também tem um diário muito emocionante sobre o cárcere. Mas no tópico leitura, qual seria o melhor tema para acompanhar um preso?Algo fantasioso que lhe levasse para longe?Tipo “Senhor dos Anéis”, do Tolkien. Ou histórias que se passam justamente dentro da cadeia? “Memórias do Subsolo” de Dostoievski é um bem pesado.
Ou talvez algo que lhe lembrasse a infância? Ou, como o assassino citado, seria melhor levar aqueles calhamaços que você na verdade não teve paciência em outra época para enfrentar?Alguns, os que pensam em sair um dia da penitenciária, preferem as leituras inspiradoras.
Na novela Insensato Coração, uma personagem passou o tempo de prisão se preparando para uma vingança e lendo Sidney Sheldon: “O Outro Lado da Meia-Noite” e “A ira dos anjos”. Me pergunto se ela notou que as mulheres que planejam as vinganças acabam sempre perdoando o homem que na verdade amavam e se dando mal. Mas eu entendo a escolha, ela estava se inspirando para a liberdade.
Em matéria de inspiração, no entanto, Nelson Mandela não deixou para ninguém. Ele tornou o poema do britânico Wlliam Ernest Henley, "Invictuous", internacionalmente famoso por dizer que era leitura constante na sua época de prisão. Os versos dizem “Nunca me lamentei - e ainda trago/ Minha cabeça - embora em sangue – ereta”. E o final é inspiração para qualquer pessoa dentro e fora das grades, mas colocado dentro da vida do homem que saiu da prisão para a presidência do país, é emocionante:


“Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou o senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.”

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Tanto para Ler


El Ateneo, uma famosa livraria de Buenos Aires

Vizinha que faz sombra



Por Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral




Buenos Aires sozinha tem mais livrarias que o Brasil. Mito ou lenda, esta é uma história que todos já ouvimos sobre a Argentina. Realmente, vi muitas livrarias na cidade, mas não tenho aqui nenhum estudo científico. O que tenho são dois fatos para nos matar de inveja dos hermanos vizinhos. O primeiro foi que a escritora espanhola Rosa Montero saiu de Madrid para ir lançar seu livro “Lagrimas em La Lluvia” também em Buenos Aires (quase ao mesmo tempo em que fez o lançamento na Espanha) e não passou por aqui. Nem para pegar solzinho. 
O segundo fato, motivo de orgulho para qualquer argentino, é que Buenos Aires foi eleita a “World Books Capital City 2011” (Capital Mundial de Livros de 2011) pela UNESCO. Esta mesma organização elege as “Cidades da Literatura” citadas em outro post. Pois Buenos Aires está séria candidata ao título perene, mas por enquanto, comemora a vitória de 2011.  
Para marcar o início das atividades que ocorrerão durante todo o ano, foi construída uma Torre de Babel de Livros na capital. Mais de 30 mil exemplares de livros, emprestados por moradores e entidades durante dois meses, formaram uma torre de 28 metros de altura. A obra é da artista Marta Minujín e está instalada na Praça San Martín. Nela, há obras de 54 países, sendo 200 brasileiras (hã, olha nós aí!).
As visitações podem ser feitas por grupos e, ao fim do passeio, o visitante ganha um exemplar de “A Biblioteca de Babel”, de Jorge Luis Borges. Apropriado, não é? A próxima capital mundial de Livros será Yerevan (na Armênia). Bogotá, na Colômbia, já foi escolhida em 2007. E no nosso imenso país, ainda nenhuma. Mas a gente chega lá.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Tanto para Ler

Pra terminar de começar


Por Eugênia Cabral
eugeniacabral@dedodemocaseditora.com.br
@eugeniamcabral


Continuando nosso assunto de começos, vou comentar os cinco colocados na semana passada e trazer o resultado da pesquisa em vários outros blogs sobre o tema.

“Memórias Póstumas de Brás Cubas” apareceu nas três listas de “Melhores começos de livros” que encontrei na Internet. Machado de Assis já dá o tom da história na abertura: “Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.”
Só Gabriel García Marquéz conseguiria colocar uma abertura dessas num livro e trazer uma história cheia de amor em “Memórias de Minhas Putas Tristes”: “No ano dos meu noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.”

Eu amo este livro por vários motivos, “Memorial de Maria Moura”, de Rachel de Queiróz, tem um começo cheio de suspense não só nesta frase como em toda a abertura: “Ouvindo o tiro, eu me apeei do cavalo. Então, tinha chegado o lugar”.

“A gente vinha de mãos dadas, sem pressa de nada pela rua. Totoca vinha me ensinando a vida. E eu estava muito contente porque meu irmão mais velho estava me dando a mão e ensinando as coisas.” O Totoca entregou? Meu livro preferido da infância, “Meu Pé de Laranja Lima, do José Mauro Vasconcelos, é assim pura ternura de infância. Os momentos de sensibilidade que o menino passa, e as injustiças, vão marcando a história. Eu lembro de terminar o livro e me jogar no sofá chorando (ridículo, né? Mas pelo menos eu tinha só doze anos...).

“O homem que acabou de entrar na loja para alugar uma cassete vídeo tem no seu bilhete de identidade um nome nada comum, de um sabor clássico que o tempo veio a tornar rançoso, nada menos que Tertuliano Máximo Afonso.” Com esse nome, Tertuliano surpreende o leitor na inimaginável situação de se descobrir “O Homem Duplicado” por José Saramago.



Ganharam destaques pelos blogs de literatura outros começos clássicos. “A Metamorfose”, de Franz Kafka, é presença imbatível. Nada como iniciar uma história informando que seu protagonista acordou transformado num inseto. Fantástico. E o citado no texto anterior “Cem Anos de Solidão”, com o pelotão atirando.

Em uma eleição no blog de Sérgio Rodrigues, o melhor começo escolhido foi o de “Ana Karenina”, de Leon Tolstoi. Este é um autor de histórias tristes. Os contos são daqueles que deixam vontade de entrar na história e abraçar os personagens. E Ana Karenina é um dos personagens que mais me causaram tristeza. Tristeza desde a primeira aparição: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira”.


Para terminar essa conversa de começo, menção honrosa para o todo bom, mas inesperado começo e fim de “Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” de Clarice Lispector. Ele começa no meio: “estando tão ocupada, viera das compras de casa que a empregada fizera às pressas porque cada vez mais matava o serviço, embora só viesse para deixar almoço e jantar prontos(...)”. (Cuidado aqui vai um fim de livro, se não quiser saber, pule). E termina sem fim: “- Eu penso, interrompeu o homem e sua voz estava lenta e abafada porque ele estava sofrendo de vida e de amor, eu penso o seguinte:”. Livros sem fim sempre me lembram uma amiga que passou um mês lendo “O Castelo” e depois, no fim para ser exata, descobriu que era o livro inacabado do Kafka. Mas términos ficam para outra hora.